A partir do que apresenta Tiago Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, os cemitérios brasileiros viveram nas últimas décadas uma transformação que vai muito além da infraestrutura. Eles deixaram de ser apenas espaços de sepultamento para se tornarem ambientes de memória, acolhimento e conexão familiar, algo que o senso comum ainda não percebeu por completo.
Durante muito tempo, esses locais foram tratados como espaços periféricos no planejamento urbano e no debate sobre políticas públicas. A gestão era, em grande parte, improvisada, desprovida de critérios técnicos sólidos e distante das demandas das famílias que os frequentavam. Esse quadro começou a mudar de forma mais intensa a partir dos anos 1990, quando novos modelos de administração e uma legislação mais estruturada passaram a exigir outro nível de organização do setor funerário como um todo.
O que poucos percebem é que a história dos cemitérios no Brasil é também a história de como a sociedade lida com a morte, com o luto e com o que se quer preservar das pessoas amadas. Continue lendo para entender como essa evolução aconteceu na prática e quais são os desafios que ainda pautam esse debate.
Como os cemitérios brasileiros eram geridos antes da modernização do setor funerário?
Até meados do século XX, a administração dos cemitérios no Brasil estava vinculada, em sua maioria, a entidades religiosas ou a prefeituras municipais que pouco destinavam à estrutura, à formação de equipes ou ao planejamento de longo prazo. Tiago Schietti explica que esse modelo criou passivos importantes: cemitérios superlotados, registros precários e uma experiência de atendimento que deixava as famílias à própria sorte num dos momentos mais difíceis da vida.
A partir da segunda metade do século XX, cemitérios particulares começaram a surgir com uma proposta diferente. A ideia era oferecer não apenas a estrutura de sepultamento, mas um ambiente de cuidado e preservação que se estendesse para além do momento do enterro. Parques cemiteriais horizontais, com paisagismo e segurança, passaram a ser vistos como alternativa mais digna e organizada, especialmente nos grandes centros urbanos.

A gestão profissional chegou aos cemitérios: o que isso significa na prática?
A profissionalização da gestão cemiterial é um dos pontos que mais transforma a experiência das famílias atendidas. Tiago Schietti, como empresário cemiterial e funerário, alude que gerir um cemitério moderno envolve muito mais do que administrar parcelas e manter a conservação do espaço físico. Envolve planejamento de longo prazo, treinamento contínuo de equipes, gestão de documentos e registros históricos, e um atendimento humanizado que atravesse todas as etapas do serviço prestado.
A adoção de boas práticas, muitas delas difundidas pela Acembra Sincep (Associação dos Cemitérios e Crematórios do Brasil), representou um ponto de virada para inúmeros cemitérios que antes operavam sem qualquer parâmetro de referência. Essas diretrizes abrangem desde o manejo técnico das sepulturas até protocolos de comunicação com familiares, passando por normas ambientais e de respeito ao espaço do luto.
Quais são as principais tendências que estão redesenhando o futuro dos cemitérios no Brasil?
A evolução do setor funerário não se restringe ao passado. Nos últimos anos, uma série de tendências emergentes passou a redesenhar o que se espera de um cemitério no Brasil contemporâneo. A cremação, por exemplo, cresceu de forma expressiva e hoje já representa uma parcela significativa das destinações finais no país, exigindo que esses espaços se adaptem estruturalmente para oferecer esse serviço com qualidade e respeito.
Como destaca Tiago Schietti, a demanda por espaços de memorialização coletiva também cresce de maneira consistente. Famílias buscam locais onde possam revisitar a história de seus entes queridos de formas que vão além da lápide tradicional: jardins temáticos, ossários modernos, áreas de convivência e recursos de memorial digital já aparecem nos cemitérios mais inovadores do país.
O cemitério como lugar vivo: pertencimento, memória e dignidade no Brasil contemporâneo
O debate sobre o futuro dos cemitérios no Brasil convergiu nos últimos anos para uma ideia que parece simples, mas tem implicações profundas: esses são espaços públicos de memória coletiva e precisam ser tratados como tal. Tal como resume Tiago Schietti, quando uma comunidade cuida bem de seus espaços de sepultamento, ela está, de alguma forma, cuidando da própria identidade histórica e cultural.
Cemitérios históricos presentes em cidades como Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo guardam registros únicos da formação social brasileira. Personalidades, famílias tradicionais, episódios históricos e manifestações culturais diversas estão inscritos nesses espaços. Reconhecer esse valor patrimonial faz parte da trajetória de amadurecimento que o setor funerário brasileiro experimenta, e começa a se refletir em políticas públicas mais atentas à preservação desses acervos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez


