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    Vaquejada e saúde do idoso sertanejo: o que essa tradição revela sobre cultura e envelhecimento?

    Diego VelázquezPor Diego Velázquez31/07/2026Nenhum comentário5 Min de leitura
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    Yuri Silva Portela
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    Para o Doutor Yuri Silva Portela, fundador do Humaniza Sertão, iniciativa sem fins lucrativos que leva atendimento multidisciplinar, doações e apoio humanizado a comunidades em situação de vulnerabilidade no Sertão de Quixadá, a vaquejada representa mais do que uma prática esportiva: ela integra uma identidade cultural que influencia a saúde do idoso nordestino. A prática tradicional conecta gerações, molda o estilo de vida no sertão e influencia diretamente a relação do idoso com o próprio corpo e com a comunidade. Compreender essa dimensão cultural torna-se fundamental para avaliar a autonomia e o envelhecimento ativo na região. 

    A seguir, você vai entender o que a vaquejada revela sobre a identidade e a saúde do idoso sertanejo. Acompanhe a leitura. 

    O que a vaquejada representa na vida do idoso sertanejo?

    Para o homem sertanejo que cresceu na cultura da vaquejada, esse esporte não é apenas entretenimento. É parte central de sua identidade, de sua rede social e de seu senso de competência e de valor. O vaqueiro que envelhece carrega consigo décadas de experiência com animais, com o campo e com uma forma de vida que exige força física, habilidade técnica e coragem, qualidades que definem sua autoimagem muito além do esporte em si.

    Quando o envelhecimento limita a participação ativa na vaquejada, seja pela redução da força, pela instabilidade no cavalo ou por recomendação médica, essa perda tem impacto sobre a identidade do idoso, que vai muito além do lazer perdido. É a perda de um papel social, de um espaço de pertencimento e de uma forma de ser no mundo que esteve presente por décadas. Compreender essa dimensão é fundamental para qualquer profissional de saúde que queira cuidar do idoso sertanejo de forma verdadeiramente humanizada.

    Conforme observa Yuri Silva Portela, o idoso que participou ativamente da cultura da vaquejada ao longo da vida frequentemente apresenta padrões de movimento, de postura e de uso do corpo que refletem décadas de atividade física intensa. Nesse contexto, lesões musculoesqueléticas acumuladas, desgaste articular específico e padrões de dor que têm origem nas demandas físicas do trabalho com animais são achados clínicos comuns nesse perfil de paciente, e o cuidado que os aborda precisa reconhecer sua origem cultural para ser eficaz.

    Quais são os impactos físicos do envelhecimento para quem viveu a cultura da vaquejada?

    O vaqueiro que trabalhou com gado durante décadas acumula no corpo as marcas desse trabalho de formas que a avaliação geriátrica convencional raramente investiga com a especificidade necessária. Lesões nos ombros por arremesso de laço, desgaste dos joelhos e quadris por anos de montaria, lesões lombares por carregamento de carga e quedas de cavalo não comunicadas ao médico por orgulho ou por normalização são parte do histórico clínico desse idoso que precisa ser ativamente investigado.

    Yuri Silva Portela
    Yuri Silva Portela

    Para Yuri Silva Portela, abordar esse histórico com respeito pela trajetória do paciente é condição para que a consulta geriátrica seja produtiva. O vaqueiro idoso que sente que seu passado é valorizado pelo médico, que sua experiência é reconhecida como parte relevante de sua saúde atual, colabora com muito mais abertura na investigação clínica e nas orientações de tratamento. Esse reconhecimento não é cortesia. É estratégia clínica com impacto direto sobre a qualidade da anamnese e sobre a adesão ao tratamento.

    A força muscular do idoso que trabalhou fisicamente durante toda a vida tende a ser superior à de idosos sedentários da mesma faixa etária, o que representa um ativo clínico que o cuidado geriátrico deve reconhecer e preservar. Ao mesmo tempo, o uso intenso do corpo ao longo de décadas pode ter acelerado o desgaste articular em regiões específicas, exigindo manejo da dor e da mobilidade que considerem tanto a capacidade quanto as limitações desse perfil de paciente.

    Como a vaquejada, como evento comunitário, protege a saúde do idoso?

    Além de seu impacto individual sobre a identidade e o corpo, a vaquejada tem uma dimensão comunitária que tem valor terapêutico real para o idoso sertanejo. Os eventos de vaquejada reúnem famílias, vizinhos e conhecidos de diferentes localidades, criando espaços de convivência social que combatem o isolamento e fortalecem os vínculos que a pesquisa em saúde identifica como protetores da saúde mental e cognitiva na terceira idade.

    O idoso que frequenta vaquejadas como espectador, mesmo quando não pode mais participar ativamente, mantém um nível de engajamento social e cultural que tem impacto sobre seu bem-estar emocional. Ele continua sendo parte de algo maior do que si mesmo, continua tendo razões para sair de casa e continua participando de conversas e relações que mantêm sua cognição ativa e seu senso de pertencimento vivo. Assim, valorizar essa relação com a cultura da vaquejada significa ampliar o cuidado com o idoso para além dos aspectos físicos, incluindo dimensões emocionais e sociais fundamentais para a qualidade de vida. 

    A cultura que forma o idoso também o cura

    A vaquejada, como expressão da cultura sertaneja, revela algo sobre o idoso que nenhum exame laboratorial captura: quem ele é, de onde vem e o que sustenta seu senso de identidade ao longo do envelhecimento. Ignorar essa dimensão é cuidar apenas do corpo e deixar de lado a pessoa que habita esse corpo.

    O cuidado humanizado que Yuri Silva Portela pratica e que o Humaniza Sertão representa inclui essa dimensão cultural como parte essencial da avaliação e do plano terapêutico. Se o idoso que você ama cresceu na cultura da vaquejada, do campo e do sertão, valorize essa história como parte de quem ele é. E busque profissionais que façam o mesmo. Esse cuidado culturalmente sensível é o que transforma uma consulta em um encontro genuíno entre duas pessoas.

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